Todo Mundo Tem Seu Dia de Eu Sou Foda ou Mirco Tem Razao, Como Eh Boa a Sensaçao de Dever Cumprido!
O dia ontem nao prometia nada, além de uma provavel discussao feia com a mala do Fabrizio (meu patrao na loja do centro de Assis. Aquela do cartao-postal.) à noite, e pior, na casa do inimigo. A manha no escritorio foi aquela correria de sempre: tanta fatura pra dobrar, tanta coisa pra xerocar, tando blog pra ler! Um almocinho frugal na casa da sogra, aula de Ingles pro chefe idiota, e aih a noticia, que, como tudo naquele escritorio, foi assim muito precisa e definida:
– Tao vindo uns coreanos aih, dah pra voce ficar pra ser a intérprete?
– Mas que coreanos?
– Uns coreanos da Espanha.
(…)
Muito bem. Um dos coreanos da Espanha liga pro escritorio, a Marta, enrolada no Ingles, me passa o telefone.
– Perdemos o Eurostar e estamos no trem normal pra Foligno, mas acho que nao vai dar pra pegar a conexao de Foligno pra Assis, vamos chegar com uma meia hora de atraso, de Foligno pegamos um taxi.
Ok, eu espero… A dor de cabeça que me perseguia desde a hora do almoço soh piorando. Até que chega um taxi e de dentro saem dois engravatados, com brochinhos da LG na lapela do terno. Apresentam-se, um é espanhol, chefe da area de comércio internacional, e o outro coreano, chefe da area quimica – essa ultima é que nos interessa, jah que eles sao fabricantes do poh com o qual fazemos o toner pras impressoras a laser. O espanhol falava Ingles muito bem (milagre!), e era muito simpatico, mas quando sorria dava vontade de sair correndo – dentes horripilantes, acavalados, amarelados, gengivas detonadas, uma coisa, enfim, traumatizante. Jah o coreano… Bem, o coreano falava um Ingles em estilo coreanico – tipo piporrrr (bota um R caipira aih) em vez de people. O que significa que eu nao entendia nada no inicio, e tinha que me esforçar duplamente, e depois traduzir pros chefes (o idiota e o nao). O coreano saca um laptop e começa a explicar toda a estrutura da LG – eles fazem trilhoes de coisas além de microondas, coisas que eu nem imaginava: de remédios a material de construçao. Começam as perguntas: pergunta pra cah, pergunta pra lah, responde pra um, traduz pro outro, como é o mercado italiano, voces pretendem ter um unico distribuidor na Italia, quantas cartuchas voces produzem por mes, voces usam um unico tipo de toner pra todas as cartuchas?. Agora imaginem o tamanho da minha cefaléia depois dessa sessao de intérprete, que durou 3 horas seguidas: eu traduzindo do Ingles, que nao é a minha lingua-mae nem a de nenhum dos outros presentes, pro Italiano, que nao é a minha lingua-mae. E vice-versa.
Acabou que os caras se interessaram mais pela minha historia do que pelo potencial business da coisa. Acharam incrivel eu ser médica e brasileira e ter ido parar naquele buraco. Acharam mais incrivel ainda eu falar Ingles assim fluentemente sem nunca ter passado mais de 2 semanas seguidas em qualquer pais angloparlante. Me acharam incrivelmente comunicativa e convincente – perguntaram hah quantos anos eu trabalhava na industria de regeneraçao de cartuchos pra impressora, e quando eu disse “desde setembro”, eles quase cairam pra tras, dizendo que eu parecia uma expert no assunto. Ainda consegui fazer uma propaganda basica do agriturismo da irma do Mirco. E ainda fui deixar os dois na estaçao de trem. Me agradeceram infinitamente, fizeram questao de anotar meu nome e e-mail no verso do cartao de visitas do chefe idiota, tentaram me convencer a ir à feira de regeneraçao em Paris, em abril (como se eu nao aceitasse na hora, se pudesse… ah, essa burocracia de merda).
Vim dirigindo toda serelepe, e obviamente exausta, drained, esaurita, como quiserem. Resolvi passar logo no Fabrizio, que infelizmente é meu vizinho, porque depois que eu entrasse em casa e tomasse o meu banhinho, nem ameaça de destruiçao pelo Godzila me tirava de casa de novo. Rossella tinha assado peixe no forno, e o filho insuportavel deles tava comendo as batatas arrosto direto do tabuleiro. Pedi desculpas por ter vindo bem na hora do jantar. Fabrizio vem mancando (operou varizes ontem), com cara de cu. A mentalidade dele é um longuissimo capitulo à parte, mas poupo-vos: basta dizer que ele é tao bitolado por trabalho que quando eu disse que nao trabalharia na Pascoa porque é meu aniversario e minha mae, que nao vejo hah 8 meses (10 em abril), viria me visitar, em vez de dizer “claro! eu arrumo uma substituta” disse “mas voce tah louca! e eu como faço?”. Por essas e outras resolvi mandar todos eles à ponte que partiu e nao trabalhar mais naquela josta. Voces acreditam que ele ainda ficou repetindo (porque ele é do tipo que se repete à exaustao) “mas eu sempre me comportei bem…” mesmo eu tendo dito que nao posso mais trabalhar com ele porque vou dar um curso de Business English pela Regione dell’Umbria, que me pagarah 20 por hora? Eu, jah no limite da exasperaçao, estava quase a ponto de gritar: “MAS VOCE ACHA REALMENTE QUE EU, MEDICA, JOVEM, BONITINHA, ENGRAçADA, EDUCADA, CULTA, TRILINGUE, ESPERTA, FAST LEARNER, VACINADA, COMUNICATIVA, EXTREMAMENTE INTERESSANTE, VOU TROCAR UMA OFERTA DE 20 POR HORA DANDO AULA DE INGLES POR UM EMPREGO DE 4 HORAS POR DIA, GANHANDO 4,5 POR HORA, TRABALHANDO NOS FERIADOS E VENDENDO SALAME???”
Incrivel como tem gente que vive em realidades alternativas. Porque o proprietario de uma loja como a dele que nao dah nem uma garrafa de vinho vagabundo de presente de Natal pras funcionarias, sendo que nos trabalhamos dia 24 até tarde, dia 26 (que é feriado aqui), direto depois até o dia primeiro de janeiro, trabalhamos nos feriados, estamos sempre à disposiçao – ele jah me ligou no meio da aula e me fez sair de Perugia pra fazer 2 horas na loja, e jah fez a Giulia voltar mais cedo de Latina (perto de Roma), onde a familia mora, porque tinha muita gente em Assis e ele nao dava conta sozinho na loja, e ligou enquanto ela tava no trem dizendo que nao precisava mais nao – enfim, uma criatura assim deve pegar o Portal Multidimensional das 8 todo dia de manha e vem trabalhar aqui, em um outro plano astral.
Ainda teve a cara de pau de dizer que me fez o favor de me botar in regola no ano passado! Ora, queridos, nao sejamos hipocritas, eu disse. Voces soh me botaram in regola (com a carteira assinada) porque senao nao me davam a carteirinha de saude, sem a qual nao se pode trabalhar em locais onde se vendem alimentos.
O que mais me irritou foi o jeito de falar deles, como se eu fosse uma ingrata. Ingrata? Mas que favor eles me fizeram? Entre dar um emprego e fazer um favor hah um abismo de diferença. Ou acham que me fizeram um favor porque sou estrangeira? Ora bolas, eu disse, eu nao sou mulata brejeira de bunda grande que vem pra cah ser escrava de marido branco nao, darlings! Sou formada em uma das melhores universidades do meu pais, toda a minha familia tem diploma universitario, moro no bairro mais nobre da cidade mais linda do mundo, sou de um pais onde o banco se resolve pela internet, onde o supermercado te entrega em casa as compras que voce fez online, onde as lojas nao fecham na hora do almoço, onde os grandes supermercados e boas livrarias funcionam 24 horas, e principalmente onde ninguém, hah anos, ousa acender um cigarro embaixo de um cartaz de proibido fumar! Mas faça-me o favor!
Ainda bem que consegui me controlar, e finalizamos a coisa com um aperto de mao meio forçado. Mas quando tava pra ir embora ainda dei uma alfinetada na Rossella, que me tinha dito que assim que o Fabrizio reabrisse o negocio (ou seja, assim que ele nao ficasse mais em casa, porque ele é uma infinita e insuportavel fonte de stress), ela iria começar um tratamento de acupuntura pra parar de fumar. Eu disse a ela pra me dizer se a acupuntura funcionava ou nao. Ela respondeu, muito acida, como se EU fosse a fonte de todo o stress dela: nao vou fazer mais nada de acupuntura nao, nessas condiçoes, vou continuar é fumando muito!
Quase quase eu acrescentei, “entao pelo menos nao fuma perto dessa mala do seu filho, porque senao é capaz dele morrer de cancer na garganta antes de voce”. O cansaço me impediu de ser grosseira.
Entrei em casa, liguei o aquecimento, embora nao seja mais necessario, tomei meu banhinho, passei creme nos meus pobres pezinhos*, fiz um pratao bem estivador de linguini in bianco (ou seja, soh com um fio de azeite e parmesao ralado), e capotei. Mirco foi jantar fora, e nem tenho idéia de que hora ele chegou. Capotei mermo.
* A decadencia é realmente total e absoluta. Nao satisfeita em dar abrigo àquelas ridiculas frieiras, que pelo menos duraram pouco, meus pezinhos agora estao abrigando uma outra forma de pimbice: o famigerado gelone (Fran, como é que chama aih na Emilia-Romagna?). Nada mais é do que uma espécie de calo que nao é calo porque nao é um espessamento da pele, nem tem aquele “olhinho” que dah vontade de arrancar. Quem olha pensa que foi o osso que inchou, porque fica um calombo vermelho e MUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUITO doloroso. Os meus gelones sao gemeos, um em cada pé, mas iguaizinhos: naquele ossinho logo embaixo da raiz do mindinho (esqueci o raio do nome do osso, dane-se). Eles jah me acompanham hah varias semanas, mas soh hoje eu tive coragem (porque tava uma temperatura agradavel) de tirar os pés das meias e mostrar pra mae do Mirco, que fechou o diagnostico. Eles doem MUITO. Doem até quando me viro na cama de noite, quando encostam no lençol. Parece que tem uma pomada contra gelone, mas também parece que nao resolve nada. A Martinha, secretaria do escritorio, tem gelone nas maos, vive passando a tal pomada, mas eu e ela achamos que a coisa continua sempre igual. Desde anteontem os gelones gemeos se reproduziram, talvez por cissiparidade, e agora estao atingindo toda a parte superior de todos os dedos. Ou seja, caminhar virou uma tortura.
O pior é que amanha tem super-hiper-mega festa do Roberto, amigo miliardario do Mirco, na casa miliardaria dele, com DJ convidado e outras chiquezas mais, e eu nao sei como vou fazer pra dançar com esses pés de pimba. E eu to DOIDA de vontade de dançar, tem séculos que nao danço coisa nenhuma (a nao ser em casa, sozinha, enquanto faço faxina ouvindo minha seleçao de Musicas Felizes).
Agora tchau que vou fazer minestra** pro jantar, to com preguiça de fazer pratos elaborados.
**A minestra nada mais é do que um caldo vegetal, com macarraozinho pequeninho dentro. A base do caldo (brodo) é a famosa triade dos temperos italianos: cenoura, aipo e cebola. Joga-se tudo numa panela com agua e deixa-se ferver. O ideal é botar um pouco de molho de tomate e umas folhinhas de manjericao (eu tenho manjericao congelado, presente da sogrona). E a variedade de massinhas pra sopa é enorme! Eu adoro macarrao de formatos estranhos. Desses pequenininhos tem um que parece arroz, tem um que parece uns graozinhos microscopicos, tem aneizinhos finiiiinhos, tem conchinhas pequetitiiinhas, tem um tipo cabelinho de anjo que jah vem todo quebradinho… Um parmesao ralado por cima (iiih, tenho que ralar mais queijo, que saco), e pronto. De secondo, faço uns ovos mexidos, ervilhas (eu e Mirco somos viciados em ervilha), pra ele uma saladinha de alface “gentil” (é a nossa alface normal, que nao tem gosto de nada. As outras variedades deles sao mais grossas, crocantes, e tem mais sabor. Eu odeio. Pra mim uma grande qualidade de um vegetal é nao ter gosto de nada. Quando mais gosto de nada, melhor), tomate e aipo, e pt saudaçoes.
E as patate arrosto? Aquelas que o filho chato do Fabrizio tava comendo do tabuleiro? Sao as batatas mais maravilhosas do mundo. Cortam-se as batatas no estilo palito, soh que mais gordinhas, e da-se uma fervidinha basica nelas. Num tabuleiro botamos as batatas, azeite, sal, e alecrim. Forno até ficarem douradas.
Rapaz, se eu soubesse rezar, diria que é tao bom que é de comer rezando.