*sigh*

Ontem foi um dia miraculoso. Paulo Cintura cancelou a aula da uma às três, o Salame não pôde alongar a aula de meio-dia à uma, almoçamos em Torgiano e a comida estava ótima, a tradução dos materiais de construção está na metade e revelou ser menos difícil do que eu imaginava (embora não o suficiente pra deixar que eu tirasse uma soneca depois do almoço), jantamos na festa do ganso na bela e fresca Bettona, e fechamos a noite nos perdendo em Spoleto, pro papai ver a Ponte das Duas Torres, construída sobre a antiga estrutra de um aqueduto romano.

Hoje vamos almoçar na Arianna, pra fazer companhia pra avó do Mirco. Ettore e Arianna vão a um encontro de carros de época em Collemancio, perto de Cannara, e vão almoçar por lá mesmo.

E depois tenho que voltar pros malditos tijolos, telhas, portas, traves, calhas. Se arrependimento matasse.

:)))))))))))))

Vocês estão acompanhando o mundial de esportes aquáticos no Canadá? Eu fico hipnotizada com as imagens. Ando dormindo pouquíssimo porque fico até tarde vendo aquela gente se remexendo na água fresca, enquanto eu morro de calor na cama.

Merecidíssimo o ouro francês no nado sincronizado individual. A francesinha, bonita e elegante, com cara de safada, fez uma coreografia muito legal, ao som de uma música animada. Aliás, já perguntei isso aqui, mas acho que é mais uma daquelas perguntas que permanecerão sem resposta por todo o sempre: por que diabos toda música de patinação, nado sincronizado e outros esportes viados é sempre um porre? Caramba!!! A francesinha não, a música era, hm, estranha, mas fácil de teatralizar, e a atleta é expressiva, recita parágrafos inteiros com um olhar, e ainda por cima nada sem aquele maldito pregador no nariz, ou seja, nada de rosto deformado. Bár-ba-ra. Mereceu de verdade, eu achei.

Maravilhosas as imagens debaixo d’água dos nadadores no início da raia, na partida ou logo depois da virada, quando dão pernadas de golfinho com os braços alongados acima da cabeça. Lindos, sereios, todos, homens e mulheres. As mulheres são interessantes de ver: as japonesas, bronzeadíssimas; as australianas, sorridentes; as americanas, iguais; as chinesas, minúsculas; as alemãs, rígidas; as polonesas, sérias; as canadenses, decepcionantes; as suíças, poucas. Os homens são todos deuses, com aqueles músculos que parecem ter sido desenhados daquele jeito todo natural, que dão vontade de tocar pra ver se são de verdade, de contornos tão suaves e ao mesmo tempo tão claramente definíveis. Os atletas talianos, claro, são os únicos machos da competição com sobrancelhas feitíssimas. Um deles papou uma medalha de ouro, numa prova em que o insosso di Phelps parece que baianizou e chegou entre os últimos. Os ombros são largos, trapézios e dorsais salientes pululam pra fora dos maiôs e macacões estilo tubarão. Onde foram parar as sunguinhas?

Divertidíssimas as imagens debaixo d’água dos jogadores de polo aquático. Na superfície, aquela chatice, bolinha pra cá, bolinha pra cá, aquela touquinha feia. Do peito pra baixo, o pau comendo soltíssimo, um puxa a sunga do outro, cotoveladas a torto e a direito, chutes bem mirados, abraços de tamanduá.

E vou dormir sonhando com os meses em que nadei das cinco e quarenta da manhã às seis e meia, eu e todos os velhinhos da Tijuca.

babbo

Ontem acordei cansadíssima. Tinha sonhado que estava com algum problema nos meniscos. O sonho era tão real que acordei com os joelhos doendo, e a dor só passou quando entendi que não estava mais dormindo. Que horror.

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Meu pai deve chegar hoje. Veio de carro de Portugal. Ontem fomos visitar o Leguinho e fiquei imaginando qual vai ser a reação dele quando vir meu pai, que ele não vê há sei lá quanto tempo, uns três anos? Ele sempre adorou papai. Nossa teoria era que ele estava acostumado a viver rodeado de mulheres – eu morei um tempo com a minha avó, e além de nós duas só vinha a Lúcia, a faxineira, lá em casa. Meu pai tem uma voz grossa e rimbombante, e sempre achamos que aquilo devia ter um grande efeito sobre o coitado do cachorro. Estou curiosa, vamos ver a que horas papai vai chegar.

gente chata é foda

Hoje me estressei com um marroquino nos correios.

Não tinha fila; era aquele horário morto de logo-antes-do-almoço em que, em um país de mangioni como a Itália, ninguém ousa sair de casa pra não perder o rango. Como sou uma menina prática e saio de casa com toda a papelada preenchida e devidamente ordenada, fui direto ao balcão com a minha tralha (uma sacola de compras que não coube no porta-treco do motorino) e meus três conjuntos de coisas a resolver: o papel pra depositar dinheiro na conta, o papel pra depositar dinheiro na poupança, e a conta de água pra pagar. Junto comigo tinham entrado na agência dois marroquinos, que voaram na minha frente pra pedir um carnê em branco pra pagar sei lá o quê. Vejam bem, já começaram mal; eu tenho vários carnês em branco em casa e na oficina, porque se precisar pagar alguma coisa nos correios eu preencho e já chego lá com tudo pronto. But that’s just me.

Continuaram mal, porque em vez de ir a uma das mesinhas que estão ali pra isso mesmo, ou seja, pra neguinho preencher coisas, ficaram no balcão ao lado do meu. Enquanto um preenchia, o outro ficava me olhando. Eu lá com a carteira aberta, documentos à vista, dinheiro espalhado nos três montinhos diferentes (o da conta, o da poupança e o da conta de água), e o diabo do marroquino me olhando. Até que não resisti e pedi muito educadamente se ele não podia fazer o favor de ir um pouco mais pro lado.

Pronto! Caiu o céu sobre as nossas cabeças.

– Qual é o problema?

– O problema é que eu não gosto de ver que tem gente pendurada no meu ombro enquanto eu faço as minhas coisas.

– Eu não estou fazendo nada.

– Não importa, não quero ninguém olhando quanto dinheiro eu tenho na carteira.

– Tá me chamando de ladrão?

– [bufando] Olha só, fofo, esse negócio de preconceito comigo não cola, porque eu sou tão imigrante quanto você. A diferença é que eu não incomodo os outros. [E que tenho os dentes, digamos, melhorzinhos. E falo italiano direito. E sou cheirosa. Entre outras coisas.] Você poderia ser qualquer outra pessoa, o papa, o Bono, o Tolkien em pessoa, e eu iria ficar irritada do mesmo jeito. Não quero ninguém respirando na minha nuca enquanto eu cuido da minha vida.

– Tá me chamando de ladrão! Eu não fiz nada! Eu fico onde eu quiser!

– Fica onde quiser coisa nenhuma. Não tá vendo a placa ali no começo da fila? “Por uma questão de privacidade, por favor aguarde sua vez atrás da linha amarela”. Tá vendo?

– Eu não sou ladrão! Não me interessa quanto dinheiro você tem!

– Ainda bem, até porque eu não tenho nenhum mesmo. Mas não quero ninguém bafejando no meu cangote. [ainda mais com esses dentes cor de ferrugem].

Antes que ou eu ou ele resolvesse cair na porrada, uma funcionária que estava arrumando elásticos num canto resolveu abrir outra caixa, bem longe de mim, e chamar os marroquinos.

Ora, tenha santa paciência. Depois não sabem por que ninguém os suporta.

da série pequenas coisas…

Já comentei aqui antes o quanto é uma mão na roda ter um lanterneiro na família.

Meu capacete é daqueles completos, que cobrem também o rosto e a mandíbula, e não só o topo da cabeça. É grande demais pro espaço embaixo do selim, então toda vez que eu saía de casa com o motorino tinha que ficar carregando aquele maldito capacêtchi pratchiádu, como diz o Mirco, pra cima e pra baixo. E poucas coisas na vida são menos portáteis do que um capacete.

Em um fornecedor de peças, procurando sei lá o que pra um caminhão, Mirco bateu os olhos num porta-trecos daqueles que se fixam na traseira das lambretas e das motos. Vagabundo, de plástica tabajara, mas com chave, com alça e removível. Trouxe pra casa e pronto, chego eu tarde em casa, cansada depois da aula com os Salames, o Mirco jantando com Gianni e Chiara, e dou de cara com aquele negócio em cima da mesa da sala, com um bilhetinho.

No dia seguinte aproveitamos que tinha pouco movimento na oficina e bolamos um jeito de fixar o negócio na lambreta, que é modelo velho e não tinha a base metálica que serve justamente pra isso. Mirco inventou um sistema lá maluco, pegou uns restos de chapa de ferro, dobrou, limou, cortou, furou, pintou de preto, aparafusou, e pronto! Ganhei um porta-treco de lambreta. Não posso me empolgar e entupir de compras, senão o peso na traseira fica grande demais e a lambreta não pára de pé. Mas é o suficiente pra botar o capacete. Maravilha :)

contact

Sabem quem me cumprimentou, a seu modo, claro, hoje de manhã? Um coelho selvagem. Eu vinha correndo pela via Sofia e quando fiz a curva da pontezinha dei de cara com ele. Ficou parado na beira do campo de girassóis, muito sério, me olhando com os olhinhos piscando. Depois de alguns segundos de contato visual, deu de ombros e sumiu no campo.

uhuuu

Hoje fiz uma coisa muito maneira, aproveitando que o Aluno Gentil e a Quarentona Estressada cancelaram as aulas: fui ao aeroporto de bicicleta, pegar nossas passagens de agosto pra Parrí. Não é o máximo? Aproveitei que o dia tava nublado e não tava muito calor, tinha um ventinho de chuva esquisito mas não forte o suficiente pra dificultar as pedaladas, e lá fui eu, quinze minutos de ida e quinze de volta entre campos de girassol, milho e linho (que tem a maior pinta de capim vagaba), até o Aeroporto Internazionale dell’Umbria (cof cof). A mocinha extremamente enrolada da Alitalia disse que é quase certo que titio dará as caras por essas bandas, mas não antes de 2006. Mas se for verdade, me aguardem, fofos, porque pior que a gente, só o Tom Jobim que passava o fim de semana em NY: vamos almoçar em Paris e jantar em Londres váaaaaaaaarias vezes… ;)

japa

E então aproveitei que tem um salão no andar térreo de onde fica a escola em Perugia, e fui ajeitar as madeixas. Andrea, o cabeleireiro-mor, aparentemente é não-viado e nada antipático – antes que venham me encher, não tenho nada contra viados mas vamos combinar que cabeleireiro bicha com complexo de general e que não faz nada do que você pede e toma decisões sozinho é um porre. Ele foi muito simpatiquinho, usou um novo produto americano (deve ser do tipo que alisa os pixains das negonas americanas, aqueles superpower, porque elas ficam todas lindas) que tem cheiro de óleo de fígado de bacalhau, me explicou como fazer a manutenção e coisa e tal e enquanto ele me ajeitava a cabeça terminei um Camilleri (Gli Arancini di Montalbano).

O problema é que eu não tenho cara de lisa. As olheiras árabes não mentem: minha carapinha é genética e tão médio-oriental como os cedros do Líbano. Quando me vejo lisa no espelho tenho vontade de rir. O Mirco acha que fiquei com cara de mulher madura, e que os cachos me rejuvenescem (faz-me rir, eu nasci velha, meu filho), mas querido, repliquei, estou quase nos 30, ridículo seria eu fazer que nem a Regina Duarte, envelhecendo de cabelão e franjinha, FRANJINHA!, por favor! Mas vamos ver até quando vou continuar com essa brincadeira, antes de me render ao maldito crespo outra vez. Ou de raspar a cabeça de vez e encerrar o assunto.

tutti al mare

Ontem, pela primeira vez na Itália, e pela primeira vez depois de MUITOS anos, fui à praia. A família da Chiara é de Fano, na região de Marche, e eles ainda têm casa lá. Vocês sabem que eu detesto praia com todas as moléculas do meu ser, mas Fano é uma cidade romana antiqüíssima que eu queria conhecer. Também tinha curiosidade de ver como é que se vai à praia na Itália. E a companhia de Gianni e Chiara não é de se jogar fora. Então, meio a contragosto, lá fomos nós.

Eu e Mirco temos sérios problemas de orientação espacial, de modo que pegamos uma estrada muito comprida, passando por Foligno em vez de ir direto por Gubbio, alongando assim a viagem em uns 40 minutos. O calor tava de matar. O Mirco ODEIA dirigir, acha uma perda de tempo ridícula, e não consegue nem aproveitar a paisagem, além de ficar reclamando o tempo todo do calor, da estrada comprida, de não chegar nunca, do velho que anda a 30 por hora à nossa frente, em uma estradinha estreita que não permite ultrapassagens. Mas eu nunca tinha passado por ali, nunca tinha ido a Marche, e estava achando tudo diferentão.

É diferentão mesmo; é uma pena que Foligno não tenha conseguido virar província, porque as cidades ali em torno são muito diferentes do resto da província de Perugia, nem parece a Umbria. Não sei explicar o que é, mas a diferença é visível.

A estrada é terrível, cheia de curvas, viadutos e túneis longuíssimos, e tenho pena dos motoristas de caminhão que têm que enfrentá-la – têm mesmo, porque não há outra estrada ligando a Umbria a Marche. Mas a paisagem é interessantíssima, com formações rochosas estranhas, estilo canyon, a terra é vermelha, as colinas são muito próximas umas das outras, as casas são isoladas, os nomes das cidadezinhas são engraçados. Muitos motoqueiros na estrada.

Quando finalmente chegamos, comecei a ver as muralhas de Fano, o centro histórico, os castelos, as fortalezas. Tudo isso na beira do mar, muito maneiro. Mas claro que não deu pra ver nada direito, porque tava um calor do cacete. Almoçamos na casa da Chiara, macarrão com molho bolognese que a mãe do Gianni mandou por nós, e depois ficamos batendo papo sobre a viagem à Normandia, estudando os guias e propondo roteiros, até o sol baixar um pouco. Depois, cobertos de filtro solar, caminhamos a curta distância até a praia.

Praia aqui é assim: na imensa maioria dos casos, você não pode chegar e jogar a sua canga e deitar pra torrar onde bem entender. Porque as praias são cobertas de cadeiras de praia com guarda-sol, tudo devidamente igualzinho, numerado e administrado por pessoas que só fazem isso da vida, e a quem obviamente você tem que pagar. Não tenho idéia de quanto custe um guarda-sol, porque o pai da Chiara todo ano aluga um, há anos, porque ele tem barco e aproveita muito a casa em Fano, enquanto que Gianni e Chiara quase nunca vão e não sabiam me dizer o preço. Mas você também pode alugar por dia, claro. Sei que é caro porque todo ano neguinho reclama na TV do carospiaggia, aumento nos preços das praias, mas não sei exatamente quanto. A cadeira é uma espreguiçadeira com uma espécie de pára-sol quadrado, acoplado, que você movimenta ao seu bel prazer, pra cobrir os olhos contra os raios do sol. Nada de canga, só toalhas cafonas estendidas por sobre as espreguiçadeiras. O guarda-sol inclui uma minimesinha onde você pode apoiar seus pertences, e levantando o tampo descobre-se uma minilata de lixo, e também há ganchinhos onde você pode pendurar sua bolsa. A convivência entre vizinhos de ombrellone é pacífica, e muitas vezes, vendo que a espreguiçadeira ao lado da sua está vaga, você joga suas tralhas ali e quando o verdadeiro dono aparece, você recolhe seus trapinhos e pronto, nada de confusão. O mar, o Adriático, não parece lá essas coisas. Chiara não cai na água porque não sabe nadar, e eu não caio porque tenho mais o que fazer, mas de modo geral vi pouca gente na água. A maioria vai pra praia pra torrar mesmo, e a maior parte das mulheres não molha o cabelo. Não sei o que europeu tem contra lavar a cabeça, mas a coisa se mantém até na praia.

De vendedor ambulante, só africanos vendendo CDs piratas com os hits mais chatos do verão. Nada de sanduíche natural, picolé, Matte Leão, claro. Pra comer ou beber você traz de casa, ou vai ali no bar, perto de onde se paga a taxa ombrellone, e paga uma fortuna. Tudo muito tranqüilo, muitos sotaques diferentes ao nosso redor, barcos tabajara saindo e entrando na minimarina, crianças tostadas de sol brincando de carrinho na areia.

Enquanto o Gianni pegava sol pra secar a psoríase dos cotovelos, Mirco dormia na sombra, ao meu lado, e eu, de camiseta e short, irritada por causa da dor de cabeça de origem fotofóbica, pegajosa de filtro solar, os pés cheios de areia grudada (filtro solar até no pé por causa da cicatriz do tombo de lambreta), morrendo de calor sem conseguir suar (tenho poucas glândulas sudoríparas), terminei Un Mese con Montalbano (de Camilleri). Quando finalmente a tortura acabou, todo mundo acordou e voltamos pra casa pra tomar banho, o sol já tinha dado uma baixada.

Jantamos uma piadina horrível num lugar tipo Chez Michou ali perto mesmo, tomamos um sorvete horrivelmente pesado e doce sentados de frente pro mar, e depois nos mandamos. Ainda pegamos um trânsito horrível pra voltar, no melhor estilo Região dos Lagos no Carnaval, por causa de desvios na estrada devido a obras mal programadas. E por causa de morrinhas que insistem em viajar a 50 apesar da fila interminável de faróis acesos atrás. Chegamos em casa tarde e cansados, e o dia só valeu pela companhia e pelo sono tranqüilo do Mirco na praia. Essa vida al mare realmente não é pra mim.