jogos

Eu sempre adorei Olimpíadas. Não porque sou suuuuper fã de esportes ou suuuuuper nacionalista – muito pelo contrário, em ambos os casos. Não sou uma pessoa competitiva e fico sempre contente por quem ganhou e, ao mesmo tempo, triste por quem perdeu (mesmo que quem tenha perdido tenham sido os argentinos ;) Gosto dos Jogos Olímpicos pela estética. Começa pela logomarca. A da Grécia esse ano eu achei tão bonitinha! Simples, clean, clássica. Gosto da abertura, mas ontem eu não vi porque saímos pra jantar em Sant’Egidio com FeRnanda, Fabião e os pais da FeRnanda e voltamos tarde. Gosto de ver caras tão diferentes, gosto de ler nomes tão estranhos, países dos quais normalmente não ouvimos falar, bandeiras desconhecidas. Gosto de ver os corpos modelados, os movimentos fluidos, as cores dos uniformes, as expressões nos rostos.

É a primeira vez que vejo os Jogos de um outro país. É muito estranho, primeiro porque quase não se falou das Olimpíadas aqui. Eu nem sabia direito quando começava, e não sei quando termina. E olha que os italianos participam de zilhões de esportes dos quais nunca ouvimos falar ou pelo menos não nos interessamos. E esse é o segundo motivo da estranheza: além das clássicas competições às quais todo mundo assiste, como as de atletismo, futebol e ginástica olímpica, aqui também mostram outras coisas “estranhas” nas quais a Itália tem atletas participando: esgrima (que eu acho lindo. Há uma atleta “azzurra” que é aaaaaaa fodona); carabina, cuja final feminina em ar comprimido eu acabei de ver, enquanto passava roupa sentada, e não entendi NADA, só sei que foi a primeira medalha dos Jogos e a de ouro foi pra uma chinesa; remo, que eu gosto à beça de ver, até porque fiz alguns meses de remo ali no Botafogo, na curva do Calombo, na Lagoa, e adorava, apesar de ter quase levado umas peixadas assassinas mais de uma vez; entre outras coisas.

Também mostram muito a natação, que pra mim é o mais lindo de se ver. Adoro ginástica olímpica, acho lindo, mas as meninas são deformadinhas, admitamos. Os nadadores são divinos, altos, lisos, corpos perfeitos. Os italianos são lindos e sempre com algum tchan ridículo: cabelos descolorados, cavanhaques bobos, penteados absurdos moldados com muitos quilos de gel, ali mesmo à beira da piscina. As meninas também são interessantes, fora as de borboleta, que têm ombros assustadores. Os uniformes são fabulosos. As tomadas dos movimentos dentro d’água quase fazem chorar de tão belas.

Pra não falar na vontade de pular numa piscina fresquinha, em vez de ficar passando roupa nesse calor que tá rolando hoje.

o tombo

Quarta-feira de manhã cedo fui dar minha corrida habitual de meia hora, tomei meu banhinho, troquei de roupa e sentei no sofá pra ver Everybody Loves Raymond, que acaba mais ou menos às nove e dez. Quando terminou, enfiei os pés nos sapatos e saí. A programação era: Assis, ao albergue da juventude pra fazer a carteirinha, porque vamos dormir em albergue em Paris, depois passaria na casa da Arianna pra mostrar a ela o novo scooter e pra dar de presente ao Leguinho uma bolinha tabajara que encontramos no chão do estacionamento da festa de Colcaprile, em Santa Maria, onde jantamos na terça, e por fim o correio de Bastia, pra pegar o pacote que minha mãe mandou e chegou na terça, mas como eu não estava em casa o carteiro deixou um recibo dos correios com o qual eu deveria ir à agência no dia seguinte e retirar o pacote.

Minha primeira memória depois da minha partida foi: eu no chão, toda ralada, ainda de capacete, chorando de ódio por ter levado um tombo tão idiota. Eu dizendo a alguém que eu tinha me assustado com o carro dele, que foi muito à frente no cruzamento, e eu achei que ele fosse passar direto, sem parar, e me atropelar. Por isso meti a mão no freio e caí, feito um saco de batatas. Lembro que o carro era uma SUV Mercedes preta e que o motorista era homem. Não lembro do rosto de nenhuma das muitas pessoas que me socorreram. Lembro que me perguntaram de onde eu era, lembro de ter pensado “eu devo estar falando em Português, por isso estão perguntando de onde eu sou” e de ter respondido “abito a Cipresso”, lembro de alguém perguntando se eu conseguia mover o ombro e eu respondi que sim.

Minha próxima memória sou eu na garagem do meu prédio, estacionando o scooter e dando bom dia a um vizinho que saía com o seu próprio scooter.

Subi, lavei a perna ralada com o chuveirinho na banheira, sentei no sofá e fiquei pensando, tentando descobrir por que é que eu tinha saído de casa. Finalmente desisti e resolvi abrir a bolsa pra ver se descolava uma pista. Vi o recibo dos correios e lembrei. Desci de novo, peguei o carro e fui aos correios, ao albergue em Assis e à casa da Arianna, que estava no quintal podando a cerca-viva e quis me levar ao hospital. Falei que estava bem e voltei pra casa. Liguei pro Mirco, que ficou furioso por eu não ter telefonado antes pra ele, e me perguntou onde tinha acontecido. Eu não lembrava (e ainda não lembro). Como foi? Contei que me assustei com o carro e coisa e tal, mas não sabia de onde o carro estava vindo. Ele me ordenou de ir ao hospital com a Arianna. Ligou a Arianna dizendo que estava saindo de casa, eu disse pra ela sossegar o facho que já era quase hora do almoço, iríamos à tarde. Mirco chegou, almoçamos, ele brigou com a Arianna no telefone e me levou ao hospital – ele ODEIA hospital, doença, ferida; fica nervoso e com vontade de vomitar e desmaiar.

Perugia tem dois hospitais: o Monteluce, que fica no centro e tem consequentemente um acesso infernal, e é onde vamos doar sangue, e o Silvestrini, que fica fora da cidade, na zona industrial, e é super bem equipado e moderno. Em algum momento no futuro vão juntar os dois hospitais na estrutura do Silvestrini, que está sendo ampliada. Fomos ao Silvestrini. Duas da tarde, ninguém na fila de espera. Fui atendida por um médico ruivo muito antipático que depois de apalpar minha perna inteira e me fazer morrer de dor, me mandou à Radiologia. Fiz radiografias do tornozelo direito, muito machucado, e da mão esquerda, que doía muito na parte carnosa logo abaixo do polegar. Nenhuma fratura. O médico mandou um enfermeiro botar uma tala no meu polegar. Achei meio estranho, porque a dor era muscular e não articular e por isso a imobilizaçao não tinha sentido, mas fiquei quieta. Ele perguntou se eu lembrava onde tinha sido o acidente, como tinha sido e coisa e tal, respondi que não. Não tinha nenhum sintoma de traumatismo craniano: nem tontura, nem vômitos, nem escotomas luminosos (leia-se luzinhas coloridas que dançam na sua frente), nem confusão mental, só essa amnésia relativa ao acidente. Ele resolveu me internar e nos mandou a uma sala de espera, pra aguardar a ambulância. Era uma espécie de depósito de macas. Mirco começou a ficar nervoso e o mandei embora, e ele foi, muito aliviado. Logo depois chegou um outro paciente, um rapaz novinho, bonitinho mas algo afeminado, braço direito todo tatuado, de camiseta regata, bermuda e chinelo, coisa que achei muito estranha, porque italiano nenhum do mundo desfila por aí nesse nível de molambice. No braço esquerdo, um algodãozinho estancando um buraquinho de injeção. Entrou um enfermeiro e o rapaz perguntou se podia dirigir; o enfermeiro disse que não, porque a medicaçao dá um pouco de sonolência. Pensei logo: tomou anti-histamínico. Perguntei se era crise alérgica, ele respondeu que foi uma picada de abelha e que uma vez ele quase morreu de choque anafilático pelo mesmo motivo, por isso agora ficou esperto e basta uma picadinha de nada pra ele correr pro hospital. Estava na piscina e a abelha, moribunda, estava numa dobra da toalha. Sentou em cima e o ferrão entrou. Ah, pensei, tá explicada a molambice. Ele perguntou o que tinha me acontecido, contei rapidamente, ele contou um acidente de moto que teve há anos e que o fez vender a moto, perguntou se eu estava correndo quando caí, falei que não, começamos a falar de acidentes e contei a história do Mario, que trabalhou comigo no escritório do Chefe Idiota e uma vez, depois de uma batida aparentemente boba, teve que ser operado às pressas de uma fratura de cervical que por um milímetro não o deixou aleijado, e ainda por cima passou 3 meses com imobilizador externo na cabeça. Contei que ele passou tanto tempo em casa mofando que assistia a toda a horripilante programação televisiva da tarde, inclusive o Al Posto Tuo, uma coisa hedionda estilo Jerry Springer que todo mundo sabe que é armado mas assiste mesmo assim.

Pronto! Lá vem ele dizer que foi convidado pra fazer um dos episódios, que é tudo armado mesmo, mas que não tem um roteiro fixo; eles só te dão uma idéia do papel que você tem que representar. Contou que foi uma atriz de Carabinieri que deu a dica, contou como a conheceu, contou fofocas do elenco da série (que eu adoro), contou quem cheira cocaína e quem não cheira, quem é piranha/viado e quem não é, falou sem parar até que o enfermeiro voltou pra me chamar, pois a ambulância tinha chegado. Me despedi e fui mancando atrás do enfermeiro.

Subi na ambulância, onde já estava, numa maca, um gordo muito simpático que tinha se envolvido num acidente de 4 carros e quebrado o úmero em 8 pedaços e o fêmur em 3. Todo enfaixado, volta e meia ele fazia uma careta de dor. Com a gente, lá atrás, uma enfermeira simpática e brincalhona; ao lado do motorista, uma amiga do gordo. Partimos pro Monteluce. O percurso é horrível, cheio de sinais de trânsito e com asfalto esburacado, e a cada sacolejada o gordo gemia e chamava o motorista: O’ Marioooooooo! Va’ piano, cazzo! A enfermeira ria, a amiga dele ria, eu ria também. O gordo sacaneava a enfermeira, que depois descobriram que era amiga da família, a enfermeira sacaneava o motorista, o motorista sacaneava o gordo, e eu ria, ria, ria.

Chegamos ao Monteluce e descarregaram o gordo. Depois foi a minha vez: fui direto à entrada do PS, onde felizmente não havia ninguém esperando. Com as radiografias e o pedido de internação na mão, fui mandada direto pra Astenteria, que é uma enfermaria provisória dentro do PS onde ficam internados os pacientes à espera de novos exames ou de novos sintomas. Meu quarto tinha três camas, uma desocupada e outra ocupada por uma cinqüentona loura muito tagarela que me disse estar lá desde sábado, pelo mesmo motivo que eu: tinha caído no chão dentro de casa, batido a cabeça, e não lembrava de nada. Chegou um médico manco muito antipático e me mandou fazer uma tomografia. A essa altura meu calcanhar direito já estava muito inchado e eu não conseguia caminhar. Um enfermeiro veio me pegar de cadeira de rodas e lá fui eu de ambulância pra um outro setor do hospital pra fazer a bendita tomo. O enfermeiro-motorista era um grisalho gatíssimo e muito simpático que fez mil perguntas sobre a minha vida e mil piadas sobre a vida dele. A enfermeira que ficava lá atrás comigo era meio mulher-macho e muito séria e depois que o grisalho me descarregou ela me largou no meio de um corredor, meio que virada pra parede. O grisalho chegou e perguntou se ela tinha me deixado daquele jeito sem nenhuma explicação; respondi que sim e ele comentou que “há enfermeiros e enfermeiros”. O radiologista me chamou, era um moreno alto e corpulento todo sorridente. Deitei na máquina e fiquei lá ouvindo aquele vruuuum, vruuuum, vruuuuuuum, quietinha, quase dormindo. O exame acabou e o radiologista veio dizer que “nella cabeza non hai niente”. O grisalho gatíssimo me empurrou pra ambulância de novo e voltamos à Astenteria. Mais tarde o Mirco chegou com a tralha: talheres (os do hospital são de plástico), água mineral, suco de laranja, tijolinhos de suco de banana com maçã, barrinhas de Muesli, xícara, copo, guardanapo, adoçante, pijama, necessaire, toalha, livros. Minha vizinha de leito recebeu a visita dos dois filhos e saiu pra tomar um café no bar com eles. Mirco disse que refez o trajeto que eu fiz naquela manhã mas não viu nenhuma marca de borracha queimada no chão. Ficamos batendo papo um tempo e ele foi embora. Eu descobri que a TV funciona a moedas. Cada moeda de 50 centavos dá direito a uma hora e meia de TV. Enfiei uma moedinha e fiquei vendo telejornal e documentários. Minha vizinha loura voltou do passeio e logo depois chegou o jantar: sopinha de macarrão estrelinha (sem sal), depois peito de peru grelhado com jardineira de batata, ervilha e cenoura. Batemos um pouco de papo, viramos pro lado e dormimos.

Dormi muito mal. Minhas pernas são tortas, sou completamente dez pras duas, e quando durmo elas também continuam tortas, obviamente. Como eu me ralei na lateral da perna direita, cada vez que relaxava as pernas elas giravam lentamente pra fora e pronto, os ralados encostavam no lençol e eu sentia dor. O tornozelo também latejava. Acho que tive febre, ou então sonhei que tive. Sei que acordei muito cansada. Comi uma barrinha de muesli e tomei um tijolinho de suco e logo depois passou o enfermeiro com o café da manhã: leite quente, café com leite ou chá. Não gosto de nada disso e dispensei. Depois veio a Claudia, enfermeira gordinha de olhos doces que veio tirar sangue e me pediu uma amostra de urina. Minha vizinha de leito tinha ido tomar café no bar e quando voltou a Claudia tirou sangue dela também. Troquei de roupa, lavei o rosto (não tinha chuveiro no nosso banheiro) e logo depois voltou o enfermeiro do café, um napolitano engraçado que veio me chamar pra fazer um ECG e um eletroencefalograma. A Claudia fez o ECG ali mesmo no PS, e depois o napolitano me levou de cadeira de rodas até um outro prédio pra fazer o EEG. Esse quem fez foi uma médica ou técnica, não sei, meio masculina, muito atenciosa. O exame é bobo, bobo: ela bota aqueles trequinhos no couro cabeludo, presos àquela rede de borracha, depois fica lá da outra sala falando fecha os olhos, abre os olhos, uma respiraçao profunda, pronto, tá ótimo. Meia hora disso e eu quase dormi. Ela ligou pro PS e o napolitano veio me buscar.

Voltei pro quarto e minha vizinha não estava. Tinha ido fazer um Doppler das carótidas no Silvestrini. Abri meu Roald Dahl mas depois de dois contos já tava caindo de sono e dormi. Acordei com duas meninas entrando no quarto, acompanhadas de uma enfermeira loura. Uma era de Hong Kong e a outra da Tunísia. Ambas estudavam na Università per Stranieri em Perugia. A de Hong Kong tinha úlcera gástrica e depois de ter vomitado sangue no meio da aula perdeu a consciência. A enfermeira loura botou a menina no soro e sumiu. Chegou meu almoço: sopa de arroz com molho de tomate e ervilha, depois bife com espinafre no alho (tudo completamente sem sal, mas encarei assim mesmo) e uma maçã. Transferiram a menina pra Gastro e fiquei sozinha de novo. Chegaram o marido e a cunhada da minha vizinha, que aparentemente já estavam esperando há séculos, mas desistiram e foram embora, deixando recado comigo. Lá pra uma da tarde voltou a minha vizinha, traçou o almoço frio, eu disse que tinham vindo visitá-la. Ela ligou pra cunhada, depois virou pro lado e dormiu. Mais tarde entraram duas lourinhas falando Inglês. Uma era inglesa mesmo, a outra, muito bonita mas baixinha demais, tinha um sotaque estranho e era muito antipática. Também estudavam em Perugia. A inglesa estava com dor de barriga há dias, teve diarréia mas não sabia dizer se tinha tido febre também. Será apendicite, pensei. Chegou um médico feio e antipático e disse que os exames de sangue preliminares mostravam leucocitose. Provavelmente era apendicite, mas ainda em estágio inicial. Dava pra ela ir pra casa pegar umas coisas, se quisesse, e voltar depois ao hospital pra aguardar o momento da cirurgia. A coitada da garota começou a chorar, não entendia direito o que acontecia, eu traduzia e a coisa só ia piorando, eu me sentindo mal por ela, a vizinha loura perguntando se a garota não falava Italiano, uma confusão danada. No final ela foi pra casa pegar suas coisas e depois iria diretamente à Gastro. Tadinha, se despediu com as lágrimas escorrendo.

Mirco ligou dizendo que tinha feito o trajeto outra vez de manhã, parando pra perguntar se alguém tinha visto o acidente. Acabou descobrindo onde foi: na saída Bastia-Torgiano da SS 75, direção Foligno – Perugia. Disse que os operários do prédio em construção bem em frente, as velhinhas da casa ao lado desse prédio e o motorista do carro pararam pra me socorrer, mas eu, que sou chata e teimosa até quando estou em estado confusional, recusei terminantemente qualquer tipo de ajuda, do copo d’água à ambulância, e cismei de voltar pra casa sozinha. Anta.

Mudou o turno dos enfermeiros. Entrou um magrelo, de pálpebras caídas, cheio de colares e pulseiras rastafari. Minha vizinha loura já o conhecia. Ele foi ler meu prontuário e voltou mais tarde, quando a vizinha tinha ido dar umas voltas com o irmão, todo animado porque eu era brasileira. Ele trabalha pra uma ONG que atua na África, em Moçambique e em Angola. Começou a contar todas as suas aventuras em Maputo e em Luanda, a descrever as cidades, eu já não entendia mais de qual delas ele estava falando. Contou o episódio do roubo do carro, dos porteiros dos prédios que andam armados, dos guardas corruptos, da comida, do mercado na rua. Depois perguntou se eu não faria uma tradução pra ele. Toda vez que algum amigo ia a Luanda ele mandava uma graninha às freiras que ajudavam nessa ONG dele e dessa vez queria mandar um cartão escrito em Português. Eu fiquei lendo e mais tarde ele voltou com a mensagem pra eu traduzir. Me mostrou também uma foto das crianças e das freiras, e me deu um jornalzinho anti-Berlusconi. Voltei pro meu livro e comecei a ficar inquieta. Mais tarde o médico feio e antipático voltou com nossos prontuários e dispensou a loura e depois a mim. Liguei pra Arianna, que uma hora depois veio me buscar com a Stefania. Assim que cheguei em casa tomei um banho tabajara de chuveirinho na banheira do banheiro grande, botei água no fogo pro macarrão, sentei no sofá com o pé pra cima e fiquei vendo TV. Mirco chegou, jantamos macarrão com gorgonzola, ficamos vendo TV e depois chapamos.

Dormi melhor essa noite, mas o tornozelo ainda dói e ainda está inchado (na verdade dói porque está inchado). De manhã dirigi até Perugia pra pegar umas tintas no fornecedor do Mirco, mas depois do almoço não saí mais de casa. Não tenho força no pé pra pisar no freio de repente, se necessário, nem força no braço direito pra engatar a ré, por causa da dor no ombro.

Resumindo as consequências diretas da compra do scooter:

1 – Mirco aprendeu a falar “capacêtchi pratchiado”
2 – Estou com a marca da sandália de dedo nos pés, depois de só 15 minutos de scooter na terça-feira, debaixo do sol das 5 da tarde
3 – Meu trapézio dói, meu ombro direito dói e está ralado, minha mão direita não tem força porque o ombro dói, tenho dois hematomas na lateral da coxa direita, uma escoriação horrível por todo o comprimento da batata da perna direita, um ralado HORRÍVEL no maléolo lateral direito, outro horrível no peito do pé direito, tornozelo inchado com movimentação reduzida, e um capacete levemente arranhado no lado direito. E amnésia relativa ao acidente.

Hoje vamos jantar na Sagra della Torta al Testo em S. Egidio, não muito longe da casa da FeRnanda. Os pais dela ainda estão aqui e já foram comer na festa do javali de Petrignano e adoraram a caipirice.

faz-me rir

O Instituto Márcia Aguiar de Expat-Pampering me enviou, diretamente da sua Biblioteca de Assuntos Sérios e Profundos, um exemplar da revista Claudia de julho, que lerei com avidez. Chegou hoje.

Uhuuuuuuuu! :)

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Depois de “se você não gostou de Berlim, deve ser uma neguinha da Rocinha que comprou o diploma”…

Depois de “o vizinho coreano da Hunka quando cozinhava empesteava o prédio”, logo “você não é polida, faz chacota e desmereceu a cozinha de uma nação inteira”…

Vem aí, diretamente da comunidade Brasil do Iogurte

…o mais novo membro da Coleção Imperial pacamanca de Silogismos de Quem Não Tem o Que Fazer e Adora Distorcer o Que os Outros Dizem:

…”eu não moro mais no Brasil”, logo “sou indigente e desertora, e não tenho mais o direito de dar pitaco no que acontece lá!”

Quando você acha que já ouviu de tudo nessa vida…

aulinha

Lição de hoje: diferenças óbvias entre termos obviamente diferentes, mas que mesmo assim neguinho confunde e com isso ESTÃO TORRANDO A MINHA JÁ POUCA PACIÊNCIA.

Preconceito e pós-conceito. Se eu já vi vários filmes de um determinado diretor e achei todos um porre, é provável que eu não vá gostar do próximo que sair. Prefiro nem assistir, porque a possibilidade de não gostar e gastar dinheiro de ingresso à toa é grande. É preconceito, porque julguei antes de ver, mas baseando-me em experiências passadas. Na minha opinião, a imensa maioria dos preconceitos é desse tipo, ou seja, baseado em estatística. Não é nem certo nem errado, nem bonito nem feio: é inevitável, e é um mecanismo de proteção muito eficaz também.

Por outro lado, se eu vi um filme qualquer e achei uma merda, tenho o direito de dizer “achei uma merda”. Atualmente, porém, se o diretor for negro, mulher, homossexual ou pobre, dizer “achei uma merda” imediatamente me transformará em racista, preconceituosa (veja bem, mesmo eu tendo formado o meu conceito DEPOIS de ter visto o filme), e/ou invejosa.

Objetivo e subjetivo. Azul é azul, uma maçã é uma maçã, um pé direito é um pé direito e não um esquerdo, uma mulher promíscua é uma mulher promíscua (doravante chamada piranha). Todos esses conceitos são OBJETIVOS. Feio é subjetivo, chato é subjetivo, gostoso é subjetivo, fedorento um pouco menos subjetivo.

O adjetivo/substantivo piranha não é, nunca foi e jamais vai ser subjetivo. Assim como azul, maçã e pé direito também não o são. Piranha só vai ser usado preconceituosamente quando eu chamar de piranha uma mulher cujos hábitos sexuais não conheço e cuja atitude e postura não dão indicações de comportamento promíscuo.

p.s.: Não vou ficar aqui discutindo quantos parceiros uma pessoa deve ter pra ser considerada promíscua. A OMS determinou 2 parceiros diferentes por ano, o que me parece às vezes razoável, às vezes ridículo. O número exato de parceiros que transforma uma pessoa em piranha é subjetivo até um certo ponto; “um monte de parceiros” não precisa se referir a um número exato pra permitir a compreensão do conceito de piranha. Tenho certeza de que qualquer pessoa equilibradazinha entende o que eu quero dizer.

Relatar e criticar/achincalhar.

Bom, se eu precisar explicar esse tipo de diferença aos meus ótimos leitores, melhor fechar o blog.

O pior cego é o que não quer ver.
E não adianta tapar o sol com a peneira.

Fomos a Certaldo, na Toscana, pro casamento da Renata, irmã da FeRnanda, com o Stefano. Eles já tinham se casado no civil, no Brasil, e sábado fizeram a cerimônia religiosa e a festa. Foi tudo na casa de um primo do Stefano, em uma colina chamada Vico d’Elsa, e foi tudo lindo. Me diverti horrores, apesar do discman não ler os CDs que eu levei meses gravando. Se a Renata deixar eu boto umas fotos aqui.

Fomos a Certaldo, na Toscana, pro casamento da Renata, irmã da FeRnanda, com o Stefano. Eles já tinham se casado no civil, no Brasil, e sábado fizeram a cerimônia religiosa e a festa. Foi tudo na casa de um primo do Stefano, em uma colina chamada Vico d’Elsa, e foi tudo lindo. Me diverti horrores, apesar do discman não ler os CDs que eu levei meses gravando. Se a Renata deixar eu boto umas fotos aqui.

hihihi

Tô atrasada com os e-mails, foi mal. Pior é que não posso nem inventar desculpa nenhuma, porque vocês tão carecas de saber que eu não tenho nada pra fazer da vida.

**

Pfaender, amigão de faculdade, futuro superurologista, que usou bigode falso de português na colação de grau e que ano que vem casa com a bendita Raquel, futura superginecologista, me mandou essa piada besta que eu adorei, exatamente porque é besta:

O cara se sentia muito sozinho e foi a um pet shop comprar um bichinho de estimação. Mas ele queria uma coisa diferente, original, em vez do beagle nosso de cada dia. Então ele vai e compra uma centopéia. Leva a centopéia pra casa na sua caixinha, felizão, e fica tão contente de ter uma nova amiga que resolve dar um pulo no bar pra tomar um choppinho básico. Claro que, sendo muito bem educado, ele convida a centopéia pra dar uns rolés com ele.

– Centopéia, quer ir tomar um choppinho comigo?

A centopéia nada.

– Ô Centopéia, vamo dar um pulo ali no boteco pra tomar um chopp, jogar uma conversa fora, hein?

A centopéia nem tchum.

– Centopéia, na boa, vamo, cara! Ô CENTOPÉIA! VAMO LÁ!

A centopéia responde, muito pau da vida:

– Eu já ouvi, porra, tô calçando os sapatos!

nao consigo mudar de assunto

Uma leitora gentil me mandou um e-mail graciosamente entitulado “telhado de vidro”, onde apontava dois erros meus: o uso de tráfico em vez de tráfego, e um superagressivo em vez de super-agressivo.

Eu gosto de me explicar, então vamos lá:

Em primeiro lugar, esse negócio de telhado de vidro sempre foi uma balela, na minha opinião. TODO MUNDO tem telhado de vidro; todos nós somos infalíveis, ninguém é perfeito. Qual é o escritor que não submete seus textos a um revisor, antes de publicar? Isso não significa que seja proibido criticar.

Em segundo lugar, PRECISO DE UM DICIONÁRIO DE PORTUGUÊS!!! Os dicionários online que eu costumava usar hoje requerem cadastro e pagamento (leia-se “não rola”). Já está na minha lista de livros a comprar quando for ao Rio.

Em terceiro lugar, essa é a coisa chata de falar uma língua estrangeira que é ridiculamente parecida com a sua. Perdi a conta de quantas vezes escrevi “orrível”, “lavorei muito hoje”, “consulência”, “próssimo”, porque em Italiano se diz orribile, trabalhar se diz lavorare, consultoria se diz consulenza, próximo se diz prossimo. Se procurarem aqui no blog vão achar dúzias de erros idiotas desse tipo. Pra não falar dos acentos desaparecidos. Lembrem-se de que eu não tenho corretor ortográfico no Word, e acentuo tudo na mão, depois de terminado o texto. Haja saco.

O blog da Ane, jornalista que no seu trabalho escreve sempre em Italiano (e muito bem, por sinal), anda cheio dessas maluquices linguísticas. Quem entende italiano morre de rir com as expressões italianas estranhamente traduzidas pro Português. Acho que ela tem menos saco (e sobretudo menos tempo!!!) de revisar do que eu. Mas minhas conversas com a FeRnanda são exatamente iguais ao blog da Ane, totalmente sem pé nem cabeça. As pausas pra procurar palavras são inúmeras. Quando duas palavras são parecidas nas duas línguas, mudando só um sufixo ou prefixo ou um pedacinho de nada, como no caso de consulenza e consultoria, ficamos horas tentando descobrir qual é a versão correta. Foi o que aconteceu comigo no caso do tráfico em vez de tráfego. Traffico, em italiano, serve pra falar tanto de comércio ilegal quanto de fluxo de automóveis. Em italiano não há hifen, alguém me corrija se eu estiver errada, e super, hiper (iper, em italiano, como o Ipercoop) e ultra vão todos colados à palavra que vem depois, sem tracinho nenhum. Outro dia fiz o Mirco ter um ataque de riso quando ele me pegou falando sozinha “Capítolo? Ou capítulo?”, tentando lembrar o que era Português e o que era Italiano. É fácil se confundir, putz. Ainda mais porque há mais de dois anos não leio nenhum livro em Português. Que orror. ;)

Como eu disse, se forem procurar com afinco vão achar mil errinhos nesse blog. Mas não vão encontrar coisas do tipo “cafézinho”, “agente vai à festa hoje”, “por causa que”, “espero que seje legal”, “estou na Itália fazem dois anos” ou “estou na Itália a dois anos”, etc.

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Baixei “Como uma Deusa” ontem. Aquela da Rosana.

ainda a patrulha gramatical

Um novo leitor, simpático e educado como a maioria de vocês, me escreveu perguntando por que eu levo tanto a sério esse lance do Português correto. Comentou que essas corruptelas do tipo “nada haver” provavelmente um dia serão o modo correto de escrever, como voismecê virou você etc.

Eu respondi que a minha pinimba é seletiva. Se o porteiro do meu prédio escreve “nada haver” eu nem reviro os olhinhos. Mas não admito que um jornalista escreva “fui à Londres”. Que um advogado escreva “desculpe encomodar”. Que um médico escreva “tuberculose à esclarecer”, como cansei de corrigir nos prontuários da minha saudosa oitava enfermaria do Gaffrée. Que um engenheiro escreva “dois kilos”. NÃO PODE. Quem teve a oportunidade de estudar, de comprar livros, de viajar, de se aprimorar, NÃO PODE botar crase antes de verbo. Não pode. E como a gente sabe que no Brasil quem tem acesso à internet é a classe média-alta, a maioria com acesso à universidade, fico chocada quando vejo esses erros online. ADVOGADO NÃO PODE ESCREVER “ENCOMODAR”. Não pode, é proibido. Porque se escreve coisas desse tipo é porque não lê um livro, ou jornal, ou revista, ou quadrinhos, há séculos. Ou, pior, se leu não prestou atenção.

Vou dar um exemplo radical, de uma colega de turma que era de uma imbecilidade ímpar – e felizmente era a única, porque os meus colegas de classe eram todos feras, e tenho certeza de que hoje são ótimos profissionais. Ela se chama Patricia (nome absolutamente não-fictício), e era completamente idiota. Um dia, numa aula de Gineco, a professora fazia comentários sobre o que mudou nas fichas do ambulatório, que as pacientes têm que preencher antes da primeira consulta. Hoje tem escrito “idade da primeira relação sexual”, mas antigamente lia-se um pudico “idade da mulher ao casar”.

Eu estava sentada atrás da Patricia e meus olhos de lince captaram a seguinte anotação:

IDADE DA MULHER ALCAZAR

Agora me respondam se vocês gostariam de ser operados por uma médica desse nível. Eu não. Uma pessoa que escreve uma coisa desse tipo não processou a informação de jeito nenhum. Aliás, nem era pra anotar nada sobre esse assunto, era uma curiosidade que a professora falou pra relaxar o papo, mais nada, e o fato dela não conseguir nem entender o que é importante e o que não é já teria sido suficientemente grave. É como se eu começasse uma aula de Inglês falando, putz, que calor que tá hoje, e o aluno escrevesse “está calor hoje”. Quequeísso! Voltamos sempre àquele velho assunto da atenção, da observação, do pensar antes de falar/escrever, de extrapolar e comparar.

Desnecessário dizer que ela ficou conhecida para todo o sempre como Patricia Alcazar. E também é desnecessário dizer que ela anda solta por aí, responsável pela saúde dos outros. Virou ginecologista. É de dar medo ou não?

putz

Surreal é entrar na comunidade Orkut do seu colégio e lembrar dos professores bizarros, das lendas absurdas sobre o homem do canivete da Macedo Sobrinho, do campão, da musiquinha que a Salvadora cantava (uma pulga na balança/deu um pulo, foi à França/os cavalos a correr, as crianças a brincar/vamos ver quem vai sobrar), do caderno Caderflex que a Orchidea obrigava a gente a usar, do Luis Eugênio que andava de lambreta prateada e dizia “Cabeças vão rolar!”.

E além disso tudo descobrir gente que você não vê há séculos e que estudou com você desde o Jardim 11 até o primeiro científico, ver as fotos e pensar CARACA como elas tão diferentes! E entender que você também está diferente. Mais diferente ainda, provavelmente.