Andei lendo (atrasada, eu sei,

Andei lendo (atrasada, eu sei, mas enfim) o post sobre gordos do Amarula com Sucrilhos, que começou com a troca de e-mails do Leo Jaime com a Signorina Epinion. Fiquei assustada com a violença da coisa. Acho que neguinho tah radicalizando demais, e radicalizar, todo mundo sabe, nao é legal. Tudo tem um limite, né, quéridos.

O problema dessa historia dos gordos é o exagero, tanto pra mais quanto pra menos. Magro demais é feio, sim, claro que é. Mas gordo demais também é feio, e quem disser que nao o nariz vai crescer. Assim como alto demais é feio, como baixo demais é MUITO feio, como espinhas demais na cara é feissimo, como dentes tortos ou amarelos ou pretos ou cinzas ou faltando sao horrendos. Assim como é feio ser ignorante, também é feio ser mal-informado, é feio ser intransigente, é feio ser intolerante, é feio ser incoveniente. Nao sei se voces notaram, mas todos esses defeitos sao coisas mutaveis. E nao mudar uma coisa mutavel é feio também. Acho que o maior problema com o gordo é que é tao obvio que é possivel emagrecer que o primeiro pensamento dos outros é “mas como é que uma pessoa se deixa ficar assim?”. Aquela frase “soh é gordo quem quer” é a maior verdade que tem. Porque fora aquela minoria que tem disturbios metabolicos graves e engorda soh de respirar, o resto é gordo ou porque come demais, ou porque se mexe de menos, ou mais possivelmente ambos. Porque ninguém força a sua maozinha a abrir a geladeira e levar um docinho à boca, darling. O gordo come porque nao consegue se controlar, e nao saber se controlar é muito feio. Eu sei, porque também tenho minhas fases de descontrole total, quando entao começo a perder de 8 a 0 pra geladeira todos os dias. E nao é legal. Nos que estamos no topo da cadeia alimentar (talvez seja exatamente esse o problema) nao podemos perder pra geladeira, é ridiculo. Se perdemos é porque tem alguma coisa errada nessa historia toda. Eh porque jah admitimos que somos mais fracos do que ela, é porque estamos de saco cheio de nos mesmos, é porque o prazer momentaneo, instantaneo, esvoaçante de comer se torna mais importante do que cuidar de nos mesmos.

E aih entramos no capitulo “cuidar de nos mesmos”. E aih começam também as ridiculas generalizaçoes. Todo mundo sabe que fauna de academia é uma coisa ridicula. Todo mundo que jah entrou numa academia de ginastica jah topou com mulheres que vao com modelito novo da Nike todos os dias, que vao malhar (ao menos em teoria) de argola, maquiagem e cabelo solto, ou com caras que depois de uma série de biceps de 12 repetiçoes vao se olhar no espelho pra ver se o musculo jah cresceu. Mas a Ale esquece que gente futil e idiota tem em TUDO que é lugar do mundo. Vah lah, em maiores proporçoes dentro da academia, mas nao significa que malhar seja uma coisa ruim. Como sempre, é o EXCESSO que é ruim. Tudo em excesso é ruim, até agua – tem muito maluco que morre assim, bebendo agua demais; tem até um nome cientifico, mas eu esqueci. Morar dentro da academia é ruim. Como morar dentro do trabaho, do cinema, das boates, é ruim. Jah tive duas fases de passar mais de duas horas por dia dentro de academia. Uma no quarto ou quinto ano da faculdade, quando a academia era pertinho da casa da minha avoh, onde eu tava meio que morando, e eu ficava estudando obstetricia na bicicleta ergométrica. Outra no ano passado, em Perugia, onde descobri uma academia modernérrima, cheia de aulas legais de step, que eu adoro, com maquinas hi-tech de musculaçao, com certas figuras perambulando pra lah e pra cah que eu ficava sentada horas soh rindo internamente delas. Nao tem nada errado nisso. Claro que nao consegui fazer muita amizade, porque como toda academia, tinha gente demais com cabelo solto e argolona fingindo que malhava, mas eu saia de lah me sentindo otima. Nem perdi tanto peso, mas me sentia o-ti-ma. As vezes ia correr de manha na estrada atras de casa – a estrada onde eu conheci o Mirco e a causa de toda a minha vida aqui na Italia – e corria, corria, corria, sem parar, sem cansar. Estava otima. Agora, que estou sem grana e sem tempo de malhar, e é frio pra cacete fora e nao dah pra correr, nao dah nem pra ir pra Assis a pé como eu faço quando o tempo é bonito, engordei de novo. Estou uns 4 quilos acima do meu peso normal (que nao é nem nunca vai ser peso-pena; sou ossuda demais, flacida demais, celulitica demais, e gosto demais de comer pra ser magrinha, mas todo mundo tem um peso normal, e o meu eu deixei pra tras hah alguns meses) e jah nao tenho nem a agilidade nem a vontade de me mexer que tinha antes, quando tinha mais ou menos um ritmo de exercicios fisicos. Sinto preguiça, me sinto pesada, lenta. Minhas roupas me apertam a barriga e chego em casa com colicas de noite. Mas eu sei que estou assim porque quero, porque jah que nao estou me mexendo deveria comer menos, porque um mes de deslizes gastronomicos me deixaram assim, e agora vou custar a recuperar. Mas vou recuperar, porque, ao contrario da maioria dos hipocritas, eu sei que gordo é feio e deselegante, e eu nao quero ser gorda demais. Porque mais ou menos gorda vou ser sempre, algum grau de barriga vou ter sempre. Mas isso nao quer dizer que vou deixar pra lah e sair comendo feito uma louca e virar obesa morbida e sair militando por aih que o mundo tem que me aceitar como eu sou. O mundo te aceita como voce é, desde que voce esteja disposto a tentar melhorar, sempre. Todo mundo sabe que perfeiçao nao existe, mas nao custa tentar se aproximar dela o mais que conseguirmos, né nao? Quem se contenta com pouco nao sai do lugar nao evolui. Gente que caga e anda é o pior tipo que tem.

Acho engraçado que a maioria das pessoas é incapaz de um pensamento do tipo nem oito nem oitenta e oito. O pensamento hoje é quase do tipo “jah que nao conseguimos ser magras como as modelos, sejamos obesos!”. Ora bolas, nem tanto ao mar, nem tanto à terra, darlings. Nao tem absolutamente nada de errado com querer ser mais bonito. Alias, o errado é exatamente se acomodar e achar que tah tudo otimo, que todo o mundo vai ter que achar gordo bonito, que as companhias aéreas vao ter que alargar as poltronas pros gordos caberem. O errado também é morrer de fome pra ficar magérrima quando o seu DNA diz que voce nao é assim. O certo é tentar ser uma pessoa legal, interessante, honesta, bem-informada; também é MUITO certo tentar melhorar a aparencia. Porque, querendo ou nao, é a primeira coisa que vemos de uma pessoa. Querendo ou nao, somos bichinhos feitos pra procriar. Desde insetos até pavoes, passando por todas as sociedades humanas consideradas “primitivas”, TODO mundo se enfeita. Pra TODO MUNDO é importante a aparencia. E qual é o problema? Ninguém leu aquela pesquisa interessantérrima que fizeram com mulheres em dias de ovulaçao e dias normais? Nos dias normais achavam homens como Leonardo DiCaprio interessantes, mas quando estavam ovulando se sentiam mais atraidas por homens mais masculos. Alguém duvidava do resultado dessa resposta? Alguém duvida que se fossemos ainda neandertais, o DiCaprio nao conseguiria nem colher uma frutinha numa arvore mais alta, quanto mais se sair bem numa luta por comida, por territorio, por uma femea? Tudo bem, somos mais evoluidinhos hoje, pensamos melhor, falamos, ganhamos um polegar opositor. Mas nao significa que os instintos às vezes ainda nao falem mais alto. Pra mim gente obesa é sinonimo de perdedor, sim – porque uma pessoa que perde pra geladeira, uma pessoa que nao toma cuidado de si mesma, provavelmente terah problemas em outras areas da vida também. Eu sei, porque quando estou mal como mais, porque quando perco pra geladeira é porque estou mal pacas, e quando estou mal pacas nao consigo fazer nada direito e ninguém me suporta, acomeçar por mim mesma. Porque quando começo a cagar e andar pro que os outros pensam é porque estou cagando e andando pra como eu me sinto também. Esquecemos que, ao contrario de alguns bichos que transam e morrem, nos somos mais avançadinhos, vivemos em sociedade. E viver em sociedade significa às vezes pensar no coletivo, preocupar-se com o coletivo, observar o coletivo, significa ter rivais, competir, significa tentar melhorar senao o outro te rouba a mulher, a piada, o emprego. Eh importante o que os outros pensam sim, obviamente até um certo limite (olha aih o limite de novo. O limite é o inimigo do excesso, e excesso, como jah vimos, nao é legal).

Acho que o moral da historia é: também tenho dificuldade em comprar roupa porque os tamanhos no Brasil foram todos diminuidos e hoje em dia o maximo de grandeza que se acha numa loja normal é 46, e em geral é um 46 com cara de 44. Mas também sei que nao custa nada eu fazer um esforcinho, comer como uma pessoa normal em vez de como um estivador, e poder vestir 44 em vez de 46. Eh melhor pra mim, e é melhor pra todo mundo. Porque nao custa nada tentar fazer parte dos que embelezam o mundo, em vez dos que enfeiam.

Lendo o artigo da Cora

Lendo o artigo da Cora no Globo sobre livrarias (vao lah no blog dela que tem o link, estou com preguiça), lembrei de dois episodios bookstore-related, sempre na Shakespeare, ali no Jardim Botanico.

Foi onde eu comprei meus primeiros exemplares de The Lord of the Rings. Eu tinha começado a ler The Hobbit na casa da Brenda, porque dormi na casa dela na noite da final da Copa (aquela do Baggio e o gol perdido), e como sempre sou a primeira a acordar e nao tinha nada pra fazer, estiquei a mao, peguei o livro e comecei a ler. Vicio instantaneo, desnecessario dizer. No dia seguinte lah fui eu com uns trocados escondidos dentro do tenis, de bicicleta até a Shakespeare. Comprei uma ediçao caixinha, com os quatro livros, que hoje nao cabem mais juntos na caixa porque jah foram lidos tantas vezes que as lombadas incharam. Lembro de tirar o tenis, aquele Reebok preto basico que todo adolescente teve (ou tem, sei lah…), e pagar pelos livros com dinheiro umido de suor de pé (eca). Se eu soubesse onde essa historia ia me levar… Se eu nao tivesse conhecido um romano na internet, nao por acaso num MUSH de Tolkien, que me convenceu a estudar italiano em vez de frances, talvez hoje eu estivesse em Paris. Estranha, a vida.

A outra vez foi quando eu voltei à Shakespeare com a Newlands, pra procurar sei lah o que – acho que era Guy Gavriel Kay (leiam The Fionavar Tapestry, crianças, é otimo. Tigana também é legal. Jah A Song for Arbonne é um pé no saco). Fomos informadas que no porao tinha uma bagunça enorme de livros, e que o que procuravamos provavelmente estava lah. Lah fomos nos, excursionar naquela farofa de livros, derrubar pilhas de livros, fuçar em estantes empoeiradas cheias de livros, em um porao cheio de livros. Soh nao nos demoramos mais porque a Newlands é alérgica a poeira. Eu por mim ficava lah toda vida…

P.S.: Nunca comprei na Amazon porque nunca tive cartao de crédito ;) Meu contato mais intimo com livrarias online foi o Faeries, de Brian Froud e Alan Lee, que o Hiro me fez o favor de incluir em uma das suas longuissimas listas de compras em livrarias virtuais, e depois me entregou no cinema Leblon. Que filme era, eu nao lembro – provavelmente um desenho da Disney, legendado, obviamente.

O ultimo que vimos juntos foi Lilo e Stitch, infelizmente dublado. Po, que saudade…

E eu fico lendo esses

E eu fico lendo esses blogs de brasileiros espalhados pelo mundo, gente que tah em lugar frio, todo mundo adorando neve e as baixas temperaturas… Po, frio é um PEH NO SACO! Um grandissimo pé no saco! E olha que aqui faz frio, mas nada muito escandinavo. E mesmo assim minhas maos estao sempre naquele processo gradativo de deteriorizaçao, meus labios sangram mesmo eu tendo aumentado meu consumo de Blistex, meus cabelos nao secam e depois de lava-los de manha tenho que ficar horas sentada do lado da lareira esperando secar, os pés estao sempre gelados e tem briga por um lugar na frente da lareira na hora do jantar porque todo mundo quer descongelar os pezinhos… Eu ultimamente acordo toda roxa, de tanto que me contraio os musculos de frio de noite. E olha que o Mirco também é friorento, o termosifone fica ligado no maximo, a cama é estreita… Lavei meu cabelo hoje às dez da manha. Sao quase 8 da noite e ainda estao umidos (tah bem, eu tenho o triplo de volume capilar de uma pessoa normal, mas mesmo assim nao justifica!). E hoje realmente a ultima gota: saih do escritorio pra voltar pra casa, e as portas do carro nao abriam. Tudo congelado. Limpadores de para-brisa idem. Vidros elétricos idem. Tudo colado com o gelo. Depois de muito penar consegui entrar e ligar o aquecimento e o desembaçador, e passados uns 20 minutos consegui ter uma visao mais ou menos razoavel da estrada à minha frente. A 30 km por hora, morrendo de medo de derrapar no gelo na estrada, levei séculos pra chegar em casa, em vez dos 5 minutos usuais. FRIO EH UM PEH NO SACO. Ou melhor: qualquer coisa que nao seja um clima temperado é um pé no saco.

Ontem fomos ver Harry Potter

Ontem fomos ver Harry Potter em Perugia. Pela primeira vez desde que conheço o Mirco nao o vi escarrapachado na poltrona, mas com os cotovelos apoiados nos joelhos, prestando a maior atençao. Nao entendeu nada, mas adorou. E hoje vamos pegar o primeiro filme em DVD pra ver se assim o coitadinho se inicia no mundo da fantasia e do sci-fi.

Epopéia Siciliana Storia e Geografia

Epopéia Siciliana

Storia e Geografia

Pois é, tah aih a Sicilia. Da historia conheço pouco, e nao tive saco de catar na internet. Mas como voces sabem, a bichinha é uma ilha bem grandinha, e estah soh a 4 km (acho) da terra firme. Até hoje ninguém se dignou a fazer uma ponte entre Messina, na Sicilia, e Reggio Calabria, na Calabria (obvio) porque o lobby das empresas das barcas é forte à beça. Mas enfim.

Todo mundo jah invadiu a Sicilia. Alias, todo mundo jah invadiu a Italia, coitada, assim toda dando pro mar fica mesmo dificil defender. Os gregos, os arabes, os normanos, e hoje os marroquinos, todo mundo jah passou por ali. Soh que nos saimos de Assis sem estudar NADA da Sicilia, e isso é a coisa mais idiota que um turista pode inventar de fazer. Resultado: eu, que estava mais interessada na arquitetura arabe do que em qualquer outra coisa, nao vi chongas de milongas.

O inverno deles é tao ridiculo quanto o nosso. Se der sorte (nao foi o nosso caso) dah até pra ir à praia pegar um sol, em pleno dezembro. Nos pegamos um friinho bem xexelento, gostoso, que se fosse assim aqui na Umbria eu tava feliz, em vez de ficar observando a decadencia gradual das minhas maos causada pelo frio… No verao é um calor de rachar, e seco seco seco seco – crianças, a Africa estah ali, pertinho, e os ventos do Saara nao perdoam. Eles tiveram graves problemas de falta d’agua esse ano.

A Sicilia era um reino até pouco tempo atras. O sul do pais todo era assim, foi anexado ao resto da Italia hah poucas décadas. Eh claro que sao zonas completamente diversas, parecem realmente paises diferentes, e a gente de uma e da outra parte nao mantém relaçoes muito amigaveis…

Eu adoro os nomes das cidades sicilianas, em geral de origem grega. Taormina nao é lindo? E Trapani (acento no a)? E Giardini Naxos? Siracusa? Agrigento? Nao sao lindos esses nomes? :)))

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Por que fomos passar o reveilao na Sicilia? Porque eu, pobre extra-comunitaria em espera de documentos oficiais, nao posso sair do pais, senao nao me deixam entrar aqui de novo. O Mirco nunca foi nem a Napoli, detesta o sul da Italia, mas nao teve jeito, entao lah fomos nos.

Todo mundo pra quem a gente dizia que ia passar o Ano Novo na Sicilia perguntava logo: mas voces conhecem alguém por lah? Porque na Sicilia, como de resto em todo o sul mafioso, é assim: quem nao tem contatos, nao conhece ninguém, acaba comendo mal, pagando caro demais nos hotéis, nos restaurantes, no aluguel do carro… A irma do Mirco conheceu um siciliano de Catania quando estudava em Londres, e esse cara tem um irmao, Serafino (nao riam, por favor), que tem um apartamento vazio em Catania. E esse irmao nos ofereceu o apartamento, sem nem nos conhecer – alias, sem nem conhecer a Stefania… No sul da Italia o pessoal é assim, meio baiano, com a diferença que sao pouco honestos de forma geral. Mas entao lah fomos nos, passar 6 dias no apartamento do Serafino em Catania…

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Catania estah aos pés do Etna. O bichinho tem mais de 3000 metros de altura, e como todo mundo sabe anda dando xilique hah algumas semanas. O aeroporto de Catania ficou fechado varios dias, e ultimamente tava abrindo soh de manha. Mas a criatura da agencia de viagens disse que nao tinha problema, que estava pra reabrir e tal. Eu e Mirco saimos de Assis depois do almoço dia 28, chegamos em Roma pra pegar o voo das 17:30 pra Catania. No check-in a menina pergunta: mas voces sabem que esse voo nao existe, né? (…) O aeroporto ainda tava fechado por causa das cinzas, e fomos mandados a Palermo. Dali pegamos um taxi pro centro, porque NENHUMA das agencias de aluguel de carros no aeroporto tinha carros pra alugar, e dali um onibus pra Catania. A viagem é de soh duas horas e chegamos sem problemas. Serafino foi nos pegar no aeroporto, onde o onibus nos deixou, e fomos pro apartamento. O Serafino é um filhinho de papai que estah hah 10 anos na faculdade e ainda nao conseguiu se formar. A familia deles é de uma cidadezinha fora de Catania, e o apartamento ele e o irmao usam quando vao à faculdade, em Catania. Eh grande, relativamente confortavel (digo relativamente porque sao 2 quartos mas nada de suite, soh um banheiro, a cozinha e a sala sao juntas, o prédio todo treme quando alguém fecha o portao com força lah embaixo, no elevador velhérrimo soh entram 2 pessoas…), e perto de tudo. Mortos de cansaço, capotamos logo.

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Dia 29 acordamos tarde, nao fizemos absolutamente nada além de rodar pelo centro da cidade. Catania é feia. Feia, feia, feia. E nao soh pelas cinzas e lixo no chao (neguinho é mal educado pacas), mas porque os prédios nao passam por uma reforma hah anos, sao todos sujos de smog, a tinta caindo aos pedaços, letreiros enormes coloridos em tudo que é lugar… O transito consegue ser pior do que em Napoli. Ninguém para nem nas curvas pra ver se vem alguém, simplesmente buzina e vai em frente. Sinal de transito parece que é soh enfeite. Faixa de pedestres idem. Muito, muito feinha mesmo.

Com todas aquelas barraquinhas no centro, a praça tem a maior cara de Largo do Machado em época de festa junina…

Mas o pior é quando venta. Porque aih as cinzas do vulcao, acumuladas em dunas ao longo do meio-fio e em tudo que é lugar, começam a entrar nos seus olhos, no seu nariz, na sua boca. Ainda sinto os graozinhos no meu couro cabeludo. A banheira fica toda preta depois que lavamos o cabelo. E isso nao é nada, disse Serafino. Semana passada, pra andar na rua soh de mascara cirurgica. Nos fundos do apartamento o chao ficou assim depois de 2 dias sem varrer:

Nesse dia penamos pra achar um restaurante. Depois de horas caminhando achamos um, na praça do Duomo – que, como eu jah expliquei uma vez mas re-explico, é o nome genérico da igreja mais importante de qualquer cidade, é a catedral. Nao lembro de que santo é essa igreja, acho que S. Agata. Entramos, e o garçom que nos recebe pergunta se temos reserva. Nao. Ah, sem reserva é impossivel almoçar em Catania no domingo. Entao tah. No outro lado da praça tinha outro. Entramos ressabiados, perguntamos se podiamos almoçar. Claro! O restaurante era uma gracinha, o maitre-garçom-host falava meio baixo demais mas comemos muito bem: risotto alla marinaia (com frutos do mar. Quem me viu, quem me ve…), de segundo Mirco mandou ver numa sopa de mariscos, e eu num filezao de peixe-espada. Um paozinho quente com manteiguinha (italiano detesta menteiga e em todo o meu tempo aqui essa foi a unica vez que vi manteiga em restaurante) MARAVILHOSO, e um vinho branco levissimo pra acompanhar. De sobremesa, profiteroles pra mim e cannole siciliano pro Mirco (tipo uma massa folhada em forma de tubo, com um creme dentro que eu acho que leva mascarpone. Nao gostei.) Na volta pro apartamento fizemos compras num mercadinho – o basico: macarrao, atum, molho de tomate, ervilhas, parmesao ralado, queijo fatiado, azeite – e mais nada. Dormimos a tarde inteira, pra acordar de noite, fazer jantar, e começar a odisséia cinematografica. O Serafino tem uma coleçao enorme de fitas de video.

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31 de dezembro

Omiti o dia 30 porque nao fizemos nada, de novo, além de comer e ver filmes. A unica novidade foi a nossa primeira visao do Etna, do parque Villa Bellini:

Pois bem, dia 31 resolvemos ir a Taormina, que é do outro lado do vulcao. Pegamos o onibus das 9:45, saimos do horroroso centro e passamos pela Vieira Souto deles.

Logo começamos a sentir um cheiro de gasolina fortissimo. O motorista para, desce, olha qualquer coisa lah embaixo, entra no onibus, voltamos pra rodoviaria. Esperamos quase meia hora até chegar um outro onibus pra substituir o nosso, que vazava gasolina em quantidades inacreditaveis. E recomeça a viagem. Pegamos a estrada Catania-Messina. Passamos por Acireale, Acitrezza (cidade dos Malavoglia, de Verga; leiam, é bonito), Fiumefreddo, Giarre, Giardini Naxos, e Taormina. A estrada é horrenda horrenda horrenda, tipo a avenida Suburbana, soh que ao longo do mar. Muito, muito, muito feio, tudo muito feio. E toma de cinzas acumuladas nas ruas.

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Giardini Naxos foi a primeira colonia grega na Sicilia. O mar ali é lindo, mas a cidade é horrenda. Alias, parece ser uma constante na Sicilia: mar lindissimo, mas as construçoes dao pesadelos. Poupo-vos das fotografias feias, fiquemos com Taormina, que é um amor – o centro historico, porque o resto… O centro lembra um pouco Capri, soh que nao tao estreito. No verao deve ser um horror, gente até subindo pelas paredes.


Tem um anfiteatro grego lindissimo em Taormina…


…de onde a vista da cidade e do mar é linda (a parte do mar nao saiu na foto, foi mal)

Almoçamos super bem, linguine com frutos do mar pra dois, Mirco detonando um secondo de mariscos. Quando saimos do restaurante o tempo tinha virado, ventava, chuviscava, tava escuro… Fomos rodar no centro, até porque os horarios dos onibus eram todos estranhos por causa do reveilao, e soh tinha um onibus pra voltar, às 17:45. A praça principal é uma gracinha, com uma torre com relogio, uma igrejinha fofa, uma biblioteca velha, uma vista divina :)

A unica coisa arabe que eu vi em toda essa viagem foi esse prédio, onde tem o centro de informaçoes ao turista em Taormina:

A viagem de volta foi meio chatinha porque tinha transito. Alias, o transito… De repente um carro fecha o onibus. Um adolescente sai correndo da viatura e bate na porta do onibus. O motorista abre. O garoto pergunta se amanha os onibus funcionam normalmente. O motorista diz que sim. A senhora sentada atras dele diz nao, nao, é feriado, nao tem onibus! O garoto agradece e vai embora. O motorista vira pra senhora: mas por que é que a senhora foi dizer que nao tinha onibus? Eu queria mais é que esse desgraçado ficasse horas no ponto esperando um onibus que nao vem.

Entao tah.

Fizemos o jantar, bebemos um vinho siciliano forte e muito doce, nao gostei. Botamos Star Wars no video. Caimos no sono antes das dez da noite. 2003 chegou e eu nem vi…

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Primeiro de janeiro

Resolvemos ir a Agrigento, ver o Vale dos Templos Gregos. O cartaz na rodoviaria dizia “duraçao da viagem: 1 hora”. Como era feriado, soh havia dois horarios pra ir, um às 6:15 da manha (hahaha) e outro às 11. O unico horario pra voltar era às cinco da tarde. Tudo bem, dah tempo… Chegamos à rodoviaria bem antes das 11, mas jah tinha a maior cabeçada ao redor do onibus. Chovia, e o motorista lah dentro fazendo sabe-se lah o que, e nada de abrir a porta. Quando finalmente abre, sao quase 11, e todo aquele povo ainda tinha que comprar o bilhete, porque especificamente pra essa linha o bilhete é feito soh dentro do onibus, e nao na bilheteria. Vai entender. O onibus tinha 2 andares, e a quantidade de gente era inacreditavel. Soh conseguimos partir às 11:40. E a viagem durou nao 1, mas TRES horas… Porque Agrigento é longe. Eu queria matar a criatura que escreveu 1 hora no cartaz na rodoviaria!

Pra chegar em Agrigento, que fica no sul, passamos por varios fins do mundo: Caltanissetta, Canicattì, Enna, todos no centro da ilha. A paisagem é estranha, toda rochosa, poucas terras cultivadas, nada de castelinhos umbros ou toscanos no alto das colinas, até porque construir qualquer coisa no alto de colina na Sicilia é meio complicado, jah que todos os altos das colinas sao cheios de pedregulhos enormes. Longuissimas distancias sem uma casa em vista. De vez em quando um cartaz escrito à mao, Trattoria, Pizzeria, Discoteca. Ficamos imaginando quantos horas de viagem neguinho ali tem que encarar pra ir dançar sabado à noite…

Agrigento é horrenda. Horrenda. Mas um taxi nos levou do centro ao Vale dos Templos… E é uma coisa de tirar o folego. Imaginamos neguinho atracando no porto lah embaixo, e vendo de longe aqueles templos enormes, amarelados, no alto dos morros… Absolutamente estupendo.

Sao 3 templos grandes e bem conservados (alias, a Sicilia tem mais ruinas gregas bem conservadas do que a propria Grécia): o de Hércules, o de Juno (ou Hera, mulher de Zeus), e o da Concordia, esse primeiro, e o mais bonito.

O do Hércules, coitadinho, é meio detonado:

Esse é o da safada da Hera:

E do outro lado tem o de Zeus (Giove, em italiano; Jupiter pros antigos romanos), do qual soh restou a base. Eh absolutamente enorme, e essa estatua tabajara aih no chao é uma divindade que suportava nos ombros a entrada do templo. Tem muito mais coisa no museu arqueologico ali perto, mas nao tivemos tempo de visitar porque, voces sabem, fomos enganados quanto à duraçao da viagem a Agrigento.

Tem também um anfiteatro, e esses restos do que um dia foi uma das portas de entrada do templo de Zeus.

E ao longo do vale, um longuissimo paredao de tumbas bizantinas:

Pra terminar, esse lindissimo pé de azeitona, onde eu certamente viveria se fosse uma driade:

O azeite deles aqui é uma droga, pesado, gorduroso. Nao sei como é possivel, jah que quando mais rochoso o terreno, melhores as azeitonas e consequentemente o azeite, e mais rochoso do que a Sicilia, soh a Lua mesmo.

Agora tchau que vou trabalhar.

O dia tava maravilhoso hoje.

O dia tava maravilhoso hoje. Eu e Mirco acordamos cedo, olhamos pra fora e vimos aquele céu azul maravilhoso, botamos os narizes fora da janela e vimos que nao tava tao frio assim. Resolvemos fazer uma expediçao ao Subasio.

De carro sao uns 10 minutos, uma bela subida. Os cachorros na mala do carro, amarradoes.

Chegando lah, a paisagem é mais ou menos assim:

Lah do alto se veem todas as cidades em torno: Perugia, S. Maria (aqui onde eu moro), Bastia, Tordandrea, Gubbio… E o Lago Trasimeno, quando o dia é realmente claro. A Rocca Maggiore, de Assis, se ve do alto, assim:

De tantos em tantos quilometros tem um abrigo assim, pro caso de uma tempestade de neve impedir a descida do monte:

O Demo deu uma de caçador, assim:

A Virgola jah tava meio cansada e com sede, assim:

Mas todo mundo feliz da vida, assim

e assim:

Depois fomos embora, assim:

Da estrada fiz essa foto de um latifundio dos Franciscanos, assim:

E foi um dia muito bom, apesar deu ter trabalhado depois.